“No dia 13, a maioria das crianças já não foi à escola (…). Nesse fim de semana, muitas empresas adotaram o sistema do teletrabalho e outras fecharam. A primeira morte em Portugal ocorreu no dia 17 de março e o estado de emergência foi declarado no dia seguinte, quando Portugal tinha “apenas” duas mortes e 642 casos. (…)

(…)No entanto, o certo é que desde o dia 18 de março temos vindo a observar em Portugal uma taxa de acréscimo diária mais baixa do que antes: apenas 26%. (…) Por outras palavras, a progressão da doença vai desacelerar.” (Fonte: Público)

Como será o arranque da económia pós Covid-19 em Portugal?

A taxa de desemprego vai subir? O poder de compra dos portugueses será afectado? Os rendimentos serão afectados? Como vão reagir perante a obrigação de pagamento de prestações bancárias ou rendas à habitação? A imagem que se começa a formar é difícil de aceitar e não se adivinham soluções fáceis.

Com as obrigações que pessoas e empresas têm de respeitar, poderão verificar-se constrangimentos de fundo de maneio e até mesmo falta de capital, o que poderá levar muitos (os que puderem) a recorrer às “pratas da casa”, aquelas que se têm de reserva e para todos os efeitos têm um valor implícito efectivo que se pode traduzir em moeda.

No entanto esse valor está sob constante influência especulativa, ou seja, o que antes tinha um valor monetário relativamente alto, hoje poderá ter uma fracção disso, não porque a sua qualidade ou propriedades tenham decaído mas porque as expectativas e confiança de mercado se deterioraram e com eles o surgimento de receios sobre o futuro, ou por num determinado momento de necessidade não se conseguir um investidor interessado em pagar um valor mais alto, seja por haver excesso de oferta no mercado ou por simples oportunismo, exercendo pressão sobre o proprietário.

O sector silvícola está também incluído nesta análise, com muitos proprietários florestais a terem de recorrer à venda das suas “pratas” (leia-se povoamentos florestais e/ou propriedades rústicas), afim de obter capital para cumprir com as suas obrigações e/ou necessidades prementes. Pode suceder, quando o sector é desconhecido (talvez por a sua vocação não ser desse âmbito), que o proprietário seja induzido em erro e concretize a venda das “mesmas” por valores mais desfavoráveis dos que são efectivamente praticados no mercado.

Deve-se considerar também a precariedade do empresário de serviços e do comerciante florestal, os quais têm responsabilidades e custos fixos a cumprir tais como salários, impostos, despesas e ainda os investimentos efectuados para manterem as suas empresas em funcionamento. Será que tem sido dado o devido reconhecimento e atenção a estes empreendedores? Será que, tal como previsto no OE deste ano, vão ser alvo de mais uma taxa contributiva?

A especulação é então um factor altamente prejudicial para o sector silvícola pois sujeita-o a falsas expectativas, criadas também por agentes exteriores (nem proprietários, nem empresários) que têm como único objectivo o de obtenção de benefício próprio. Os proprietários devem estar conscientes de que podem sair lesados ao confiar no intermediário/comprador errado. Tais agentes especuladores são duplamente prejudiciais ao sector silvícola, pois tentam obter lucro de proprietários e empresas, estrangulam margens (sem remorsos), impondo obstáculos ao investimento, muitas vezes sem nada produzirem e sem disporem de quaisquer meios ou responsabilidades, deixando até dúvidas sobre as próprias declarações de rendimentos.

É importante alterar este paradigma, é por isso que na fase que se aproxima se deve dar mais valor à informação, facilitada pela tecnológia, pois a informação é um dos factores mais importantes para que se possa tomar a decisão certa na concretização de negócios. Não significa isto que se deva prescindir por completo dos mecanismos que têm vindo a ser usados até aos dias de hoje, no entanto pode-se incluir nessas transacções outros mecanismos que facultem um maior controlo sobre as mesmas, reunindo o maior número possível de interessados e de avaliações/propostas, sejam para aquisição de produtos/recursos florestais, seja para a concretização de serviços, pois só dessa forma e fazendo uso de uma competitividade saudável se pode atingir o valor mais vantajoso para todos, sem o receio de que alguém se sinta ofendido ou obrigado a concretizar uma venda e sem que possam surgir ressentimentos.

Por fim mas não por último, não se pode esquecer a floresta de conservação e a sua biodiversidade. Quais serão os efeitos de uma eventual crise sobre a mesma? Será que os proprietários vão dispôr dos incentivos necessários para preservar propriedades com floresta autóctone biodiversa? Será que se não puderem obter rendimento sobre as mesmas, irão proceder com a venda dessas propriedades a outrém inclusivé ao capital estrangeiro, com todas as consequências que daí possam advir (obtenção ilícita de fundos, perda de soberania, destruição de flora e fauna, etc.)?